Por: Ana Virgínia, Analista de Inovação do Enredes
O edifício mais alto construído no Brasil antes do ano 2000 era o Palácio W. Zarzur (antigo Mirante do Vale), localizado em São Paulo. Inaugurado na década de 1960, o Palácio possui 170 metros de altura e 51 andares, sendo o 4º mais alto da cidade.
Os edifícios altos sempre estiveram presentes nas grandes cidades. No entanto, o papel desses edifícios mudou, tornando-se componentes estratégicos do urbanismo contemporâneo.
Com a urbanização acelerada e as mudanças nos hábitos da população — especialmente após a pandemia — cresce a necessidade de verticalizar com qualidade, buscando soluções que unam densidade, sustentabilidade e bem-estar urbano. Ao mesmo tempo, enfrentamos questões complexas:
- Como preservar a história dos bairros?
- Como garantir conforto e segurança ao usuário?
- Até onde vale a pena subir?
Como são classificados?
A definição de um arranha-céu (ou skyscraper) é subjetiva e relativa ao contexto urbano, variando de acordo com o país, instituição ou norma técnica. Não há um único padrão absoluto, mas algumas organizações internacionais oferecem classificações amplamente adotadas para categorizar edifícios altos.
O Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH) e a ASHRAE (American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers) propõem:
| Categoria | Altura | Descrição / Uso | Fonte |
| High-Rise (EUA) | >75 pés (~23 m) | Edifícios que exigem sistemas especiais de evacuação, ventilação e proteção contra incêndio | ASHRAE, NFPA 101, International Building Code (IBC) |
| High-Rise (CTBUH) | Relativa ao contexto, em geral ≥35 metros ~ 12–15 andares | Edifício que demanda sistemas verticais (elevadores, combate a incêndio, estrutura especial) | CTBUH – Height Criteria |
| Tall | Relativa ao contexto, em geral de ≥ 100 metros | Edifício considerado alto com base na proporção e contexto urbano | CTBUH – Height Criteria |
| Supertall | ≥ 300 metros | Classificação formal para edifícios com altura ≥ 300 m | CTBUH – Height Criteria |
| Megatall | ≥ 600 metros | Classificação formal para edifícios com altura ≥ 600 m | CTBUH – Height Criteria |

Descrição da imagem: Classificação de Edifícios Altos – CTBUH
No Brasil, embora o termo “prédio alto” não tenha definição formal, a ABNT NBR 9077:2001 estabelece que edifícios com mais de 12 metros de altura devem obrigatoriamente dispor de escadas de segurança, para garantir evacuação em emergências. Esse critério técnico é frequentemente utilizado como referência mínima para caracterizar edifícios altos sob o ponto de vista da segurança contra incêndio.
No contexto da NBR9077, a norma não fornece uma definição específica para “prédio alto”. No entanto, a altura da edificação é definida como a dimensão entre o ponto que caracteriza a saída final (descarga) até o piso com ocupação humana mais elevada, expressa em metros. Para fins de segurança contra incêndio, edificações com altura acima de 30 metros são frequentemente consideradas como “altas” e requerem medidas específicas, como a instalação de escadas de segurança.
De toda forma, ainda há carência de padronizações no país, e muitas cidades utilizam o número de andares ou parâmetros do plano diretor para definir limites.
O CTBUH também faz outras considerações importantes de classificação, como:
- Altura arquitetônica (até o topo da estrutura, excluindo antenas)
- Altura até o último andar ocupado
- Altura total até o topo de qualquer elemento fixo
Tipologia funcional: mais do que altura
Além da altura, atualmente se retrata a tipologia funcional como elemento central para classificar e entender o papel dos edifícios altos nas cidades:
- Monofuncional: residencial, corporativo, hoteleiro
- Uso misto (mixed-use): combina dois ou mais usos, promovendo vida urbana
- Uso adaptativo: edifícios que mudam de função ao longo do tempo
Panorama global e nacional
No mundo, edifícios como o Burj Khalifa (828 m – Dubai) e o Merdeka 118 (678,9 m – Kuala Lumpur) redefinem o que é possível em altura. E em 2030, estima-se que o Jeddah Tower alcance mais de 900 metros de altura.

No Brasil temos Yachthouse by Pininfarina Tower 1 e 2 e One Tower (Balneário Camboriú) com mais de 290 metros de altura alçancam o pódio brasileiro.
Desafios técnicos e estruturais
Projetar um prédio alto envolve considerar:
- Ação do vento (principal carga lateral)
- Sistema estrutural eficiente (núcleos rígidos, megaestruturas, concreto de alta resistência)
- Elevadores inteligentes (zonas de parada, controle de tráfego vertical)
- Evacuação e segurança contra incêndio (pressurização de escadas, abrigos/refúgios)
No contexto urbano, em condicionantes urbanos como no bairro do Bexiga (SP), o desejo de preservar a memória urbana entra em conflito com propostas de adensamento e novas tipologias de uso misto.
Normas como a NBR 9077 (saídas de emergência), NBR 6118 (estruturas de concreto) e regulamentações locais são fundamentais nesse cenário.
E o impacto nas cidades?
Projetos altos devem vir acompanhados de planejamento urbano, zonas mistas e diretrizes claras para não afetar o sombreamento de áreas públicas ou causar sobrecarga na infraestrutura da cidade.
O futuro dos prédios altos: para onde vamos?
Tendências incluem:
- Construção modular em altura
- Prédios multifuncionais (uso misto)
- Integração com tecnologias de cidades inteligentes
- Espaços coletivos em altura (praças aéreas, áreas verdes verticais)
- Habitação social em torres, com desenho inclusivo
O desafio agora é construir alto com propósito, com qualidade e segurança — e não apenas por status.
Mais do que uma corrida por metros, o avanço dos prédios altos exige um olhar técnico, urbano e social. Ao compreender suas classificações, desafios e impactos, engenheiros, arquitetos e gestores urbanos podem colaborar para cidades mais inteligentes e humanas — mesmo nas alturas.
Referências bibliográficas:
ASHRAE 90.1, NFPA 101 Life Safety Code, International Building Code (IBC)



