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Mercado 23 de Setembro de 2019

“No mundo ideal, não deveríamos ter que vestir um personagem para sermos respeitadas”

A diversidade é um tema muito discutido atualmente e cada vez mais cresce a preocupação das empresas em promover ambientes de trabalho com mais espaço para pessoas de diferentes culturas e ideias. Muitas organizações já compreenderam que investir em diversidade traz mais riqueza ao ambiente de trabalho e abre oportunidades para a inovação, contribuindo de maneira significativa para o alcance de resultados com qualidade.

O estudo Women in the Workplace 2018, realizado pela LeanIn.Org e McKinsey & Company nos Estados Unidos, revelou que, apesar das companhias divulgarem que estão altamente comprometidas com a diversidade de gênero, o progresso é lento. Segundo a pesquisa, a contratação e promoção de mulheres para cargos de liderança ainda é baixo e, se continuar nesse ritmo de hoje, haverá apenas um ponto percentual de aumento nos próximos dez anos. 

Na construção civil, um setor ainda dominado pelos homens, pesquisas evidenciam que a força de trabalho feminina está aumentando. Dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) do Ministério do Trabalho e Previdência Social mostram que em 2016 elas já ocupavam mais de 219 mil vagas, de um total de 2,122 milhões de trabalhadores. Em 2006, eram em torno de 108 mil mulheres de um total de 1,438 milhão.

São serventes, carpinteiras, ajudantes de obra, pedreiras, soldadoras, técnicas em segurança do trabalho e engenheiras, que, com naturalidade, têm condições de realizar as tarefas com tanta competência quanto os homens. Nos cargos de liderança, elas ainda enfrentam barreiras, mas têm conquistado espaços importantes. Nesta entrevista com a CEO da InovaHouse3D, Juliana Martinelli, fala um pouco sobre sua jornada na construção, como é liderar em um setor majoritariamente masculino e os desafios que as mulheres ainda enfrentam no segmento.


Enredes - Como começou sua carreira na construção?

Juliana Martinelli - Apesar de ter cursado engenharia elétrica na faculdade me descobri como grande entusiasta de projetos de inovação dentro do tema de Smart and Sensible Cities. Costumo brincar que entrar para a indústria da construção não foi bem uma escolha, foi uma armadilha do destino. Sempre fui muito observadora da rotina e soluções existentes dentro de cada contexto que vivenciei. No começo essas análises e ideias não faziam tanto sentido, mas em 2014, depois de já estar respirando o empreendedorismo por um tempo e a cabeça borbulhando, um tema me tirou da inércia de apenas pensar e começar a agir: o potencial de levar habitação digna para pessoas que necessitavam por meio da aplicação da tecnologia de impressão 3D de cimento.


E como essa ideia saiu do papel?

Em 2014 minha ideia era levar o modelo desenvolvido pela chinesa WinSun para o Haiti, país que havia passado por um terremoto em 2010 e em 2014 ainda não tinha conseguido se reconstruir. O Brasil atuava lá, junto com a ONU, perdi um amigo da família no terremoto em 2010 e em 2014 meu pai foi comandar o contingente brasileiro na MINUSTAH. Algumas portas se abriram para tirar essa ideia do papel. No entanto, a empresa chinesa alegou que a tecnologia ainda era muito embrionária para aplicação em lugares fragilizados, que a solução poderia gerar mais caos do que ajudar. Poderia ter desistido aí, mas no começo de 2015, levei essa ideia para um evento de startups em Brasília e, com ajuda de um dos mentores, mudamos a solução para: desenvolver uma tecnologia nacional que pudesse trabalhar com a realidade da construção e os problemas de habitação no país.


Tecnologia e construção. Como é liderar e empreender nesses setores ainda majoritariamente masculinos?

Empreender no Brasil é difícil. Desenvolver e implementar uma tecnologia no Brasil é difícil. Ter sua inovação reconhecida pelo mercado brasileiro é difícil. Ser mulher e negociar grandes projetos na construção é difícil. Eu pulei logo de cabeça nesses desafios, abracei todos eles de uma vez. De um modo geral, as dificuldades estarão sempre no nosso caminho. Liderar uma equipe dentro de um futuro incerto de desenvolvimento foram um dos maiores desafios da minha vida. Além da briga de egos de uma equipe jovem, confiante e insegura ao mesmo tempo, tive que aprender muita coisa no meio do caminho. E, mesmo depois de 5 anos, ainda preciso lapidar muita coisa. O importante, sendo mulher, é lembrar que se tentar vencer esses desafios faz sentido pra você, você tem todas as ferramentas para conseguir!
 

Já houve alguma situação que te incomodou durante sua trajetória (machismo, discriminação, etc)?

Sou muito bem humorada e não costumo levar nada para o pessoal. Brinco que antes de perceberem que eu sou mulher eles percebem que eu poderia ser filha ou neta deles, a idade costuma chegar primeiro no julgamento do meu interlocutor. No entanto, já passei por situações constrangedoras, onde tive que ter jogo de cintura e me posicionar para não perder o espaço que estava ocupando no momento. Se para alcançar nossos objetivos precisamos engolir alguns sapos e mudar nossa postura, que não tenhamos medo de fazer. No mundo ideal não deveríamos ter que vestir um personagem para sermos respeitadas, mas o mundo não é ideal. Não é fácil ser mulher no mercado de trabalho, cada dia é um passo que damos rumo à equidade de gênero, mas nos apoiarmos na muleta do preconceito não nos fortalece. É aquele ditado: o melhor argumento são os bons resultados! Temos que nos unir para mostrar nossa relevância, até que a cultura patriarcal seja dissolvida da sociedade. Depois de um tempo à frente da Inova, percebo a importância da história de mulheres e meninas que transformaram contextos. São essas histórias que fortalecem a luta pela igualdade, e fico muito honrada em ser considerada uma inspiração dentro do cenário da digitalização da construção.


Na sua opinião, quais as barreiras que as mulheres já venceram e quais elas ainda enfrentam no setor?

Acredito que em um nível mais gerencial estamos vencendo muitas barreiras. Em ambientes com mão de obra menos qualificada o preconceito no dia a dia é mais escancarado. Quantas vezes serventes, mestres de obra ou pedreiros já não olharam torto para uma engenheira acompanhando obra e mandaram chamar “o engenheiro”, ou então perguntaram "o que a arquiteta está fazendo aqui?" Ainda precisamos fortalecer a parte de igualdade salarial, mudar o cenário de formação - onde a maioria dos interessados por engenharia são homens, e solucionar o dilema da gravidez no ambiente de trabalho.


O que você acha que ainda precisa ser feito para melhorar ainda mais a presença de mulheres na construção civil?

Primeiro precisamos encorajar as mulheres que já estão atuando a exercerem funções de liderança ou outras funções que elas desejam, mas se inibem por acreditar não serem capazes. Depois, acredito que o caminho é inverso: pegar nossas meninas e incentivar o desenvolvimento de habilidades lógicas e espaciais, para que as futuras gerações cresçam com interesse para área de exatas.