veja nosso
último artigo

Inovação 19 de Agosto de 2019

Desafios do BIM na construção: Exército Brasileiro

No segundo artigo da série , o criador do OPUS no exército brasileiro defende a necessidade de a sociedade civil interagir com o governo para expansão do processo na cadeia produtiva

O coronel da Reserva Alexandre Fitzner, atual CIO e CTO na Cloud4Project, foi um dos palestrantes da estação de trabalho sobre BIM na fase de projetos, promovida pela Rede Construção Digital (RCD), em abril deste ano. Ele compartilhou a sua experiência com o desenvolvimento do Sistema Unificado do Processo de Obras (OPUS), baseado em BIM, realizado há 15 anos, pelo Exército Brasileiro.

Na ocasião, também sugeriu que as construtoras, incorporadoras e projetistas apresentem sugestões ao governo, por meio de conselhos, organismos e outras representações ligadas ao setor, para abrir um debate mais produtivo e até gerar uma normatização para a cadeia produtiva. “A iniciativa não necessariamente tem de ser do governo. É preciso existir uma interação dos dois lados, muito mais intensa”, reforça. Ele acrescenta que esse é o momento certo para o debate. “Sempre na mudança de governo é uma boa oportunidade”, afirma. 

Segundo ele, da parte governamental, poderiam ser tratadas as questões técnicas que permeiam a cadeia produtiva, a fim de melhorar a performance das edificações, qualificar melhor os profissionais e elevar o nível da tecnologia construtiva. Além disso, também poderia entrar na pauta a questão dos softwares, a importação e exportação de talentos, entre outros temas pertinentes. 

Atualmente, na visão de Fitzner, há muitos desafios para a implantação do BIM, tanto no processo como nas áreas política e tecnológica. Entre eles, destaca-se o custo de implantação do BIM, considerado mais caro que o CAD. “Temos que dizer aos órgãos de controle que não adianta comparar um projeto em BIM com um projeto quase histórico. Temos que reagir contra as bases feitas de forma errada nas licitações”, alega. 

Outra questão, relacionada ao processo, é a perda das informações modeladas, por parte dos órgãos públicos. “Você não pode pedir algo [no processo licitatório] que não conseguirá controlar depois. Há um uso ineficiente da informação gerada”, ressalta. 

Dentro deste contexto, o coronel considera importante o setor da construção exigir dos conselhos, organismos e outras representações ligadas à área, que se posicionem diante das instituições públicas e privadas. “É preciso questionar, começando pela questão da orçamentação, que está toda errada. Em BIM, temos que antecipar o investimento, pagar melhor os arquitetos e engenheiros, ou seja, gastar mais. E por que não privilegiar as empresas que fazem esse tipo de investimento na licitação pública?”, questiona.

Para Fitzner, o mercado precisa entender não apenas dessas questões, mas de tudo o que vem acontecendo relacionado à indústria 4.0, smart city, sustentabilidade, inovação, transparência, competitividade e ética, BIM management, entre outros. “Hoje, ainda entregamos o BIM com o paradigma antigo”, acrescenta.


 

OPUS

No evento, Fitzner também detalhou toda a complexidade no desenvolvimento do OPUS, sistema criado na época em que as pessoas estavam começando a falar de BIM no Brasil. “Os processos vão se modernizando, novas pessoas, novos softwares e demandas governamentais, mas o sistema é mutável com o tempo, bastante plástico e tem se adequado perfeitamente”, explica.

Segundo o coronel, o exército é organizado em 12 regiões do Brasil, cada uma com sua diversidade, legislações ambientais, entre outros desafios que persistem até hoje. Ao todo, são cerca 1.800 imóveis, entre hospitais, escolas, instalações industriais, fábricas, armazéns, entre outros. O desafio era cuidar tanto da construção como da conservação desses imóveis, alguns da época do império. “Fazer obra privada já é difícil, mas no setor público é ainda mais complexo, considerando que no exército o quadro de pessoas muda 60% a cada quatro anos. É desesperador em meio a um projeto grandioso receber pessoas que não estão preparadas”, afirma.

A preocupação do exército era lidar com a transparência e com resultados, por isso a solução foi criar uma smart city. “O exército brasileiro está todo modelado. É uma solução própria que está dimensionada para trabalhar com qualquer plataforma, de qualquer empresa, que desenvolva em BIM”, conta. 

Para desenvolver o sistema, o coronel visitou vários países e constatou que nenhuma das metodologias utilizadas no mundo poderia atender o exército brasileiro, que tem uma especificidade particular. Por isso, desenvolveu um sistema único, que hoje é pesquisado por outros órgãos e países.

Essa cidade digital possibilita fazer simulações de projetos, com equipe especializada em plano diretor, para atender os critérios ambientais, normativos e específicos de cada região, custo da obra, etc. “Quando o engenheiro submete o projeto em BIM, se ele não estiver adequado para aquela região, o sistema já recusa”.  

O sistema integra desde a solicitação de uma obra, com uma equipe que planeja e programa, até a questão dos projetos, licitação, fiscalização, recebimento e o descarte, ou seja, envolve todo o processo de um projeto. “Hoje temos um programa que pertence ao Brasil”, ressalta.

“Desafios do BIM na Construção” é uma série de 04 artigos que aborda como a Building Information Modeling tem sido adotada pelas construtoras, fabricantes e projetistas que integram a Rede Construção Digital. Na última semana, apresentamos a trajetória do Dimas Construções em busca da implementação desse processo. Clique aqui e confira.